Carta a um tolo 47
É claro que dói, não preciso mentir.
E é uma dor como a de um tapa na cara; e é merecida sim porque eu já sabia de tudo a muito tempo.
Mas vocês, meus caros, devem saber que o coração é tolo, e ele insiste naquele restinho de esperança sustentado por mentiras que ele mesmo te faz acreditar.
Será que foi tudo perdido? Eu sei que não, e também sei que não faria diferente se acontecesse de novo.
Tenho orgulho de dizer que ao menos uma vez na vida consegui me deixar levar pelos sentimentos, coisa que nunca houvera experimentado antes.
Eu estava cansada de me reprimir; e mesmo que não tenha terminado bem, vou continuar a seguir meus sentimentos, isso deixa a vida mais emocionante e também me faz sentir mais humana.
E isso tudo só prova o quão viva estou e como frágil é o ser humano.
Mais uma coisa que eu gostaria de contar a vocês:
Ele tem uma garota, sempre teve, e eu sempre soube disso.
Minha adolescência acaba aqui.
Diário
A essa hora deve estar frio lá na serra. Ontem acordei às 6 com o barulho da chuva e senti como se eu pudesse passar o dia inteiro em contemplação somente ouvindo o som dos pingos no telhado, como se fossem sinos. Hoje acordei nostálgica, como se tivesse voltado no tempo, num dia em que a temperatura chegara no máximo aos 20 graus celsius; quando foi mesmo isso? A última vez que me sentira assim. Já nem me lembrava mais como era; e eu só quis ficar parada, bem quieta, apreciando esse sentimento de paz interior. Foi quase uma oração, em que eu desejei que dias como aqueles voltassem.